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2. O Nome da Rosa - Textos publicados na Folha

Eco explora dimensões do tempo em novo livro

(publicado em 10/10/1994)

JOSÉ GERALDO COUTO
Enviado especial a Frankfurt

Umberto Eco já não arrasta multidões, mas continua a ser uma das atrações da Feira de Frankfurt. Nesta edição do evento ele está lançando seu terceiro romance, "L'Isola del Giorno Prima" (A Ilha do Dia Anterior). Os dois primeiros, "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucault", venderam nada menos que 23 milhões de exemplares em 32 línguas.

No novo livro, um italiano que participou da Guerra dos 30 Anos acaba naufragando durante uma ação de espionagem no Pacífico e se vê diante de uma ilha deserta, aonde não consegue entretanto chegar. A ilha está mais longe no tempo (tudo nela acontece no dia anterior) do que no espaço.

Ao desenvolver esse entrecho de fábula, Eco volta a exibir sua erudição, desta vez sobre temas como a longitude, a astronomia e a anatomia no início da Época Moderna.

Eco falou à Folha no estande da editora italiana Bompiani, que espera vender os direitos para um punhado de países, incluindo Brasil (diz-se que Record e Companhia das Letras estão na disputa).

Folha - O argumento de fundo fantástico de seu novo livro faz lembrar um pouco de Borges e também de Bioy Casares, sobretudo "A Invenção de Morel". O sr. vê uma semelhança?

Umberto Eco - A influência de Borges é grande sobre todos os meus livros, porque é um dos escritores que eu amo mais. Conheço Bioy Casares, aliás encontrei-o este verão em Buenos Aires.

Eu não pensava particularmente em seu livro enquanto escrevia. É certo que se pode fazer essa analogia, mas pode-se fazer também com Stevenson, com Poe, com Defoe, com Verne, com todos os que trataram do tema de algum náufrago perdido no meio do mar. De todo modo, a literatura argentina que você citou me agrada muitíssimo.

Folha - Como em seus outros livros, há neste um conjunto de argumentos: o barroco, o segredo do ponto fixo da Terra, o mundo dos antípodas... Quando o sr. escreve um romance, o que vem primeiro: os temas que vai abordar, a estrutura narrativa ou o quê?

Eco - Parto de uma idéia. Neste caso, o naufrágio de uma nave com um só homem. Dessa idéia eu parto, depois trata-se de tentar fazer-me ajudar pela própria história, que se escreve de certo modo sozinha.

Demorei para encontrar a chave justa para o início do livro, porque eu estava há dois anos sem escrever ficção. Depois disso, o texto avançou por conta própria.

Folha - A linguagem do livro também vem durante a escrita?

Eco - Depende. A linguagem vai mudando conforme entram em cena os personagens, cada qual com seu modo de falar e pensar. Neste livro há, por exemplo, um italiano que fala alemão, mas como se falasse italiano, quer dizer, com a estrutura da língua italiana. O que se estabelece é uma espécie de duelo entre eu e cada personagem, cujo estilo um pouco eu aceito e um pouco eu recuso.

Folha - Para o sr., qual seria a diferença fundamental entre escrever teoria e escrever um romance?

Eco - No romance, as regras existem, mas são feitas para ser violadas. Quando alguém faz uma teoria, deve fazer uma teoria rigorosa, mas quando tem uma idéia que serve para um romance, essa idéia não deve ser usada rigorosamente. Pode-se ofendê-la e violá-la quando se quiser. Do contrário, seria a morte da criação.

Folha - O sr. já veio muitas vezes à Feira de Frankfurt, na qual sempre é uma das maiores celebridades. Nunca pensou em escrever um livro inspirado nela?

Eco - Bem, o grande poeta italiano Vittorio Sereni uma vez fez comigo um passeio noturno por Frankfurt e depois ele escreveu um conto muito bonito sobre a feira. Então, achei que ele já tinha feito... De todo modo, é uma boa idéia. Se eu a escrever, você terá a sua comissão (risos).



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