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1. Lolita - Textos publicados na Folha

Leia o conto "Música", publicado no "Mais!"

(publicado em 14/08/1994)

VLADIMIR NABOKOV

O vestíbulo transbordava de casacos de ambos os sexos: da salade visitas vinha uma rápida sucessão de notas de piano. O reflexo de Victor no espelho da entrada acertava o nó de refletidagravata. Esforçando-se para alcançar mais alto, a empregada pendurou seu casaco, mas ele se desprendeu arrastando na queda outros dois,e ela teve de começar tudo de novo. Já na ponta dos pés, Victor entrou na sala de visitas, onde a música imediatamente se tornou mais alta e viril.

Ao piano estava Wolf, visita rara naquela casa. Os demais -ao todo umas 30 pessoas- ouviam numa variedade de poses, alguns com o queixo apoiado na mão, outros expelindo baforadas de fumaça em direção ao teto, e a iluminação incerta emprestava certa qualidade vagamente pitoresca à imobilidade geral. De longe, a dona da casa, com um sorriso eloquente, indicou a Victor uma cadeira desocupada, uma pequena poltrona com encosto em forma de oito quase à sombra do piano de cauda. Respondeu com gestos apologéticos -está bem, aqui está bem, posso ficar de pé. Logo depois, entretanto, começou a mover-se na direção sugerida, sentou-se cautelosamente e cautelosamente cruzou os braços. A mulher do pianista -boca entreaberta, olhos piscando rapidamente- estava prestes a virar a página da partitura.

Virou. Na negra floresta de notas ascendentes, um declive, uma ravina, seguida de um pequeno grupo de trapezistas em fuga. Wolf tinha cílios longos, alourados, e orelhas translúcidas de um delicado tom carmesim: percutia as teclas com extraordinária velocidade e vigor e, nas profundezas envernizadas da tampa aberta do teclado, as imagens de suas mãos executavam uma mímica fantasmagórica, intrincada, quase caricatural.

Para Victor, toda música que ele não conhecia -e tudo que conhecia era uma dúzia de temas convencionais- se assemelhava ao matraquear de uma conversa em língua estrangeira: em vão a gente se esforça para definir ao menos os limites das palavras, mas tudo escorrega e se funde, até que o ouvido indolente começa a entediar-se. Victor tentou concentrar-se na audição, mas em breve se surpreendeu observando as mãos de Wolf e seus reflexos espectrais. Quando os sons cresciam num trovão insistente, o pescoço do intérprete se inchava, os dedos espraiados ficavam tensos e ele soltava um ligeiro grunhido. Em certo ponto, sua mulher precipitou-se e ele reteve a página com um tapa instantâneo da palma esquerda e então, com incrível velocidade, virou-a ele próprio, enquanto ambas as mãos já massageavam outra vez furiosamente o submisso teclado. Victor fez um estudo pormenorizado do homem: nariz pontudo, pálpebras salientes, cicatriz deixada por um furúnculo no pescoço, cabelos parecendo uma penugem loura, ombros largos no corte do casaco preto.

Por um instante Victor buscou interessar-se novamente pela música, mas, mal se havia concentrado, sua atenção já se dissolvera. Virou-se lentamente, pescando a cigarreira, e começou a examinar os outros convidados. Em meio aos rostos estranhos descobriu alguns conhecidos -lá está o gorducho e simpático Kocharovsky... devo cumprimentá-lo. Acenou com a cabeça, mas errou o alvo: foi outro conhecido, Shmakov, quem retribuiu o aceno. Ouvi dizer que está indo embora de Berlim, para Paris, vou perguntar se é verdade. Num divã, flanqueada por duas senhoras idosas, a ruiva e corpulenta Anna Samoylovna reclinava-se com os olhos cerrados, enquanto o marido, especialista de garganta, apoiava o cotovelo no braço da cadeira. Que objeto brilhante é aquele que ele está girando nos dedos da mão livre? Ah, sim, um pince-nez preso a uma fita tchekoviana. Mais adiante, um dos ombros à sombra, um homem corcunda e barbudo, conhecido como amante da boa música, ouvia atentamente, o dedo indicador cravado na têmpora. Victor nunca lembrava seu nome. Boris?

Não, não era isso. Borisovich? Também não. Outros rostos. Será que os Haruzins vieram hoje? Sim, lá estão. Olhando para outro lado. E, no instante seguinte, bem atrás deles, Victor viu sua ex-mulher.

De pronto baixou a vista, batendo automaticamente o cigarro para deslocar a cinza que não tivera tempo de se formar. De algum lugar, lá embaixo, seu coração ergueu-se como um punho que desfere um uppercut, recuou, avançou de novo e passou a bater rápida e desordenadamente, contradizendo a música, afogando-a. Não sabendo para onde olhar, fitou a esguelha o pianista, mas não ouviu som algum: Wolf parecia estar martelando um teclado mudo. O peito de Victor se apertou tanto que ele teve de endireitar o corpo e respirar fundo: então, retornando às carreiras de um lugar muito distante, a música ressuscitou e seu coração voltou a bater em ritmo mais regular.

Haviam-se separado dois anos antes, em outra cidade, onde o mar ribombava à noite e onde tinham vivido desde que se casaram. Com os olhos ainda baixos, tentou conter o tropel do passado com pensamentos triviais: por exemplo, que ela devia tê-lo visto há pouco, quando ele, com passos longos, silenciosos e balouçantes, atravessara na ponta dos pés toda a sala para chegar à cadeira. Era como se alguém o tivesse surpreendido nu ou fazendo alguma coisa idiota; e, lembrando como, em sua inocência, ele havia esbarrado no olhar dela (hostil? zombeteiro? curioso?) e batera em fuga, interrompeu-se para refletir se a anfitriã ou alguém mais na sala estaria a par da situação, e como ela fora parar lá, se viera sozinha ou com o novo marido, e o que ele, Victor, devia fazer: ficar como estava ou olhar para ela? Não, olhar era ainda impossível; primeiro precisava acostumar-se com sua presença na sala, grande mas confinante -pois a música os havia cercado e se tornara para eles uma espécie de prisão, onde ambos estavam fadados a permanecer cativos até que o pianista deixasse de construir e preservar aqueles calabouços de som.

O que é que ele fora capaz de observar naquela breve olhadela de reconhecimento, um instante atrás? Tão pouco: sua vista que se desviava, o rosto pálido, uma mecha de cabelos negros e, como um vago traço secundário, pérolas ou qualquer outra coisa em torno de seu pescoço. Tão pouco! No entanto aquele esboço descuidado, aquela imagem incompleta já era sua mulher, e a momentânea mescla de luz e sombra já formava uma entidade singular que trazia seu nome.

Como parecia distante no tempo! Ele se apaixonara loucamente por ela numa noite abafada, sob um céu desfalecente, no terraço do pavilhão do clube de tênis e, um mês depois, na noite de núpcias, chovera tanto que não se podia ouvir o mar. Que beleza havia sido. Beleza... que palavra úmida, lembrando o marulhar das ondas, tão viva, tão dócil, rindo e chorando por si só. E a manhã seguinte: as folhas reluzentes no jardim, aquele mar quase silente, mar lânguido, leitoso, argênteo.

Tinha de fazer alguma coisa com o resto do cigarro. Virou a cabeça e mais uma vez seu coração saltou uma batida. Alguém se movera, bloqueando-a quase inteiramente e puxando um lenço tão branco quanto a morte; mas em breve o cotovelo do estranho se afastaria e ela iria reaparecer, sim, num instante ela iria reaparecer. Não, não consigo olhar. Há um cinzeiro sobre o piano.

A muralha de sons permanecia tão alta e impenetrável como antes. As mãos espectrais nas envernizadas profundezas continuavam a executar as mesmas contorções. "Seremos felizes para sempre" - que melodia nessa frase, que brilho! Ela era toda macia como veludo, dava vontade de apanhá-la nos braços como se pega um potrinho recém-nascido, as pernas dobradas. Abraçá-la e dobrá-la. E depois? O que se poderia fazer para possuí-la completamente? Eu amo teu fígado, teus rins, as células do teu sangue. Ao que ela respondia: "Não seja nojento." Eles não eram ricos nem pobres, e iam nadar no mar durante quase o ano todo. As águas-vivas, varridas sobre a praia de cascalho, tremiam ao vento. Os penhascos da Criméia reluziam sob o borrifo das ondas. Uma vez viram um pescador carregando um homem que se afogara; os pés nus, aparecendo por baixo da coberta, pareciam surpresos. De noite, ela costumava preparar chocolate para os dois.

Olhou de novo. Ela estava agora de olhos baixos, as pernas cruzadas, o queixo apoiado sobre os nós dos dedos: era muito musical. Wolf devia estar tocando uma peça famosa e bonita. "Não vou conseguir dormir por várias noites", pensou Victor, enquanto contemplava seu pescoço alvo e o ângulo macio do joelho. Usava um vestido preto de tecido leve, que ele não conhecia, e seu colar lançava reflexos intermitentes. "Não, não vou conseguir dormir e vou ter que deixar de vir aqui. Foi tudo à toa: dois anos de esforço e de luta, minha tranquilidade mental quase restabelecida -e agora tenho de começar tudo de novo, tentar esquecer tudo, tudo que já havia quase esquecido e mais ainda esta noite."

Subitamente pareceu-lhe que ela o estava olhando de maneira furtiva, e ele afastou o rosto.

A música deve estar chegando ao fim. Esses acordes tempestuosos, ofegantes, geralmente significam que o fim se aproxima. Outra palavra curiosa, fim... Confim, marfim... O trovão no confim do céu, as nuvens cor de marfim prenunciando a tempestade. Com a chegada da primavera ela se tornara estranhamente apática. Falava quase sem mover os lábios. Ele perguntava: "O que é que há com você?" "Nada. Nada de especial." Às vezes ela o fitava com os olhos semicerrados, uma expressão enigmática. "Quê que há?" "Nada." Ao cair da noite parecia exausta. Não se podia fazer nada com ela, pois, embora fosse pequena e magra, se tornava pesada, inamovível como se feita de pedra. "Você não vai me dizer o que está acontecendo?" Assim foi por quase um mês. Então, numa manhã - sim, era o dia de seu aniversário- ela disse muito simplesmente, como se estivesse falando de qualquer coisa à toa: "Vamos nos separar por algum tempo. Não podemos continuar assim." A filha do vizinho entrou correndo no quarto para mostrar-lhe seu gatinho (único sobrevivente de uma ninhada que havia sido afogada). "Vá embora, vá embora, depois eu vejo." A menina se foi. Houve um longo silêncio.

Depois de algum tempo, vagarosamente, silenciosamente, ele começou a torcer os pulsos dela -tinha ganas de quebrá-la toda, de deslocar cada junta com ruidosos estalos. Ela começou a chorar. Ele sentou-se à mesa e fingiu que lia o jornal. Ela foi para o jardim, mas logo retornou. "Não posso esconder mais. Tenho que contar tudo." E, com um estranho ar de surpresa, como se falasse de outra mulher, surpreendendo-se com ela e convidando-o a compartilhar da surpresa, contou tudo, tudo. O homem era um sujeito corpulento, modesto e taciturno. Costumava visitar-nos para jogar cartas e gostava de falar sobre poços artesianos. A primeira vez tinha sido num parque, depois na casa dele.

O resto é totalmente vago. Caminhei pela praia até o começo da noite. Sim, parece que a música vai terminar. Quando, no cais, dei-lhe um tapa na cara, ele disse: "Você vai pagar caro por isso", pegou o boné do chão e se afastou. Não disse adeus para ela. Que idiotice teria sido pensar em matá-la. Vai viver, vive. Trata de viver como estás vivendo agora, como estás sentada agora, senta-te para sempre. Vai, olha para mim, por favor, eu te peço, olha por favor. Perdôo tudo, tudo será esquecido -então, por que deixar para depois? Olha para mim, olha para mim, mostra-me teus olhos, meus olhos, meus olhos queridos. Não. Tudo acabado.

Os últimos acordes, multidigitados, poderosos -mais um e só resta fôlego para outro mais. E, após aquele acorde derradeiro, com que a música parecia haver entregue toda sua alma, o artista fez pontaria e, o artista fez pontaria e, com felina precisão, percutiu uma única nota dourada, singela e singular. A barreira musical dissolveu-se. Palmas. - Há muito tempo que não tocava isso -disse Wolf. - Você sabe, há muito meu marido não tocava essa peça -disse a mulher de Wolf. Avançando sobre o pianista, cercando-o, empurrando-o com a barriga, o especialista de garganta disse: - Maravilhoso! Sempre disse que é a melhor obra que ele compôs. Acho que, lá para o fim, você modernizou um pouquinho demais a tonalidade do som. Não sei se você me entende, mas...

Victor estava olhando para a porta. Lá, uma mulher esbelta de cabelos negros despedia-se com um sorriso de desculpas da anfitriã, que repetia com voz surpresa: - De jeito nenhum, vou servir um chá agora e depois vamos ouvir uma cantora. - Mas a convidada continuou a sorrir se desculpando e caminhou para a porta. Victor perceber então que a música -que antes lhe parecera uma cela estreita onde, manietados pelos sons retumbantes, ambos haviam sido obrigados a sentar-se frente a frente a uma distância de cinco metros -fora na verdade uma incrível felicidade, uma redoma mágica que os havia aprisionado num abraço, permitindo que ele respirasse o mesmo ar que ela; e agora tudo se rompia e espalhava, ela desaparecia porta afora, Wolf fechava o piano, o maravilhoso cativeiro jamais seria recriado.

Ela se foi. Ninguém parecia haver notado nada. Ele foi cumprimentado por um homem chamado Boke, que lhe disse com voz amável: - Estava olhando para você. Que reação à música! Você parecia tão chateado que me deu pena. Será que a música não lhe diz nada mesmo?

- Por quê? Não, não estava chateado -respondeu Victor sem jeito. - É que não tenho ouvido para música e por isso não sou bom crítico. Por falar nisso, o que é que ele tocou? - Sei lá -disse Boke, com o sussurro preocupado de quem não entende nada do assunto. - "A Prece da Virgem" ou a "Sonata Kreutzer". Uma coisa qualquer.

Tradução de Jorio Dauster

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